Por Jessé Souza
Em 21/09/2017

Procura-se babá de luxo

Diante da bandalheira que se tornou o Brasil, cresce um sentimento entre as pessoas de desejar que os militares tomem o poder, o que eles chamam de “intervenção constitucional”, a fim de “moralizar” o país. Mas existe outra leitura importante a ser feita embutida nesse desejo.

Na verdade, o que muitos querem é que esse papel de fazer a faxina moralizadora no país seja feito por alguém (um herói) de forma espetacular ou por uma instituição (Exército) de maneira e por meio da força, se for possível. As pessoas não querem ter o trabalho de dar sua parcela de contribuição que signifique suar a camisa ou correr riscos.

Muitos que bradam pelo Exército são os mesmos que jamais querem sair da sua zona de conforto, a exemplo de praticar ações sociais, se envolver em projetos que signifiquem assumir responsabilidades em favor da coletividade; preferem o egoísmo, o egocentrismo e se, pudessem, o Estado os preveriam de tudo, inclusive de um salário sem trabalhar.

No máximo, essa gente acha que se envolver em solidariedade é participar de um evento que exige um quilo de alimento ou entregar algumas moedas soltas no piso do carro ao mendigo ou ao estrangeiro que clama por ajuda na sinaleira porque fugiu da pobreza em seu país.

Para estes, não importa democracia ou ditadura, pois tudo continuaria na mesma, pois jamais sofreriam coações, censura, pressões ou perseguições, uma vez que a vida deles não comporta contestações ao poder e aos poderosos, no máximo um resmungo nas redes sociais quando a fila está longa ou quando é mal atendido por alguém em algum órgão público ou na loja onde ele faz crediário ou na lanchonete da esquina.

A dor do outro sempre é relativizada ou literalizada, porque não cabe na conveniência dessas pessoas interpretar a realidade por outra visão que não aquela em que não há oprimidos e excluídos, e sim pessoas que não escolheram o melhor caminho, como se todos tivessem a mesma oportunidade e a mesma realidade.

Neste sentido, senso crítico é para revoltados ou desocupados, inclusive a cultura e a defesa do meio ambiente se incluem nesse conceito, em que arte é só para agradar, e jamais colocar em dúvida a sociedade e a religião absoluta em suas vidas; e meio ambiente é o gramado verde com florzinha onde não se pode pisar, de preferência regrado por outro alguém.

Essas pessoas vivem buscando um herói (no passado já foi Collor, ontem foi Joaquim Barbosa e agora o Sérgio Moro) e, como não importa participar nem confrontar o poder, o Exército seria a saída rápida e providencial, para que depois eles devolvessem o país “limpo” sabe-se lá quanto tempo depois, como se os militares fossem uma babá de luxo. 

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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