Por Parabólica
Em 28/09/2017

Bom dia,

O que se vê, se comenta e se ouve em Brasília, nestes dias que antecedem a votação do segundo pedido de autorização que o Supremo Tribunal Federal (STF) faz à Câmara Federal para processar o Presidente da República, denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por obstrução ao trabalho da Justiça e formação de quadrilha, é estarrecedor, para dizer o mínimo. Liberação de dinheiro público para parlamentares - via emendas individuais ao Orçamento da União -, nomeação de apaninguados para cargos federais e anistia generosa de encargos e multas para devedores do Tesouro Nacional são algumas das moedas de troca nas articulações do Palácio do Planalto para obter votos salvadores do mandato presidencial.

Uma das mais conhecidas comentaristas políticas da imprensa brasileira, Cristiana Lobo, disse, na semana passada, que o mais assustador neste cenário sombrio é que os políticos já não ruborizam a face, mesmo quando flagrados no cometimento de ilicitudes com o dinheiro público. Tudo é feito como se roubar o dinheiro do contribuinte; desviá-lo em benefício próprio ou de outrem, fosse parte inerente e justificável da atividade política. Brasília virou lamaçal moral, onde quase todos se lambuzam, sem que qualquer instituição seja capaz de dar um basta. É desalentador.

Se decidisse descrever a cena e a movimentação dos políticos brasileiros, o poeta paraibano Eduardo Alves da Costa, autor do imortal poema “No Caminho com Maiakovski”, diria que o mais frágil desses políticos corruptos já não se esconde para roubar o dinheiro público e, conhecendo o nosso silêncio de cúmplice, não se preocupa mais em arrancar a voz da nossa garganta. E já não dizemos mais nada.

Já o saudoso Helder Câmara, humanista e que foi arcebispo de Olinda e Recife, por certo, ao ver tanto imobilismo e permissividade da sociedade tupiniquim, diante desse quadro geral de desfaçatez dos canalhas que infestam a política em Brasília, por certo que refletiria sobre seu conceito de “Maioria Abraãmica”. Está muito difícil ouvir a voz dessa maioria que se pensa honrada e séria.

CARA DE PAU
Acredite se quiser. Waldemar da Costa Neto, preso por corrupção até poucos dias atrás, anda com desenvoltura pelo Palácio do Planalto. Dono do PR, ele quer aproveitar os votos do partido na Câmara Federal que irão decidir o futuro do presidente Michel Temer, para negociar mais cargos no Governo Federal. Ele, que já comanda o Ministério dos Transportes, quer agora indicar apaninguados para a Secretaria dos Portos, que tem status de ministério. O problema é que o posto está ocupado por um protegido do notório senador paraense Jader Barbalho (PMDB). As raposas lutam para tomar conta do galinheiro.

EXEMPLO
A Folha publicou, esta semana, reportagem sobre o asfaltamento da BR-210 no trecho compreendido entre Novo Paraíso e Entre Rios. Um jornalista, morador do Município de São João da Baliza, reclamava da demora para a conclusão daquela obra, o que provoca buraqueira e poeira no verão e lamaçal e atoleiros na estação chuvosa. As justificativas dadas por sucessivos governos estaduais para o atraso daquele asfaltamento - que é bancado com verba federal - já não convencem ninguém. Até mesmo investigação sobre pagamento de propina, promovida pelo Ministério Público Estadual, foi suficiente para fazer a obra andar. Aquilo começou no governo de Ottomar Pinto que, como se diz popularmente, está de ossinho branco, e já atravessou nada menos do que quatro administrações estaduais sucessivas.

OPOSIÇÃO?
Quem espera uma oposição radical do recém-empossado vereador Marcelo Lopes (PEN) a administração da prefeita Teresa Surita pode se decepcionar. Lopes ainda tem muito bom relacionamento com a prefeita, embora mantenha um pesado contencioso junto à importante figura com influência decisiva no Palácio 9 de Julho. Como empresário, o vereador manteve por mais de uma década contrato de prestação de serviços com a Prefeitura Municipal de Boa Vista (PMBV) na área de informática, que foram paulatinamente cortados por influência daquele influente assessor.

FRAUDE
Deus me livre! Já não é possível fazer nada neste país sem que os corruptos se aproveitem para roubar dinheiro público. Você leu essa semana, aqui mesmo na Folha. O delegado da Polícia Federal Allan Robson disse que há indícios muito fortes de um golpe praticado contra o INSS que chega à casa de R$ 1.000.000,00. Tudo porque, na pequena cidade de Caracaraí, quatro associações de pescadores artesanais arranjaram fichas para três mil beneficiários do Seguro Defeso, auxílio concedido aos pescadores durante o período de proibição de pesca para permitir aos peixes a reprodução. Deve ser a perversa lógica de que se os poderosos roubam bilhões e não vão para a cadeia, por que os pequenos não podem se apropriar de R$ 1 milhão?

QUEM PAGA?
Nada contra o direito de qualquer servidor público em buscar benefícios sob forma de salários ou de redução da jornada de trabalho, mas é bom lembrar o velho ensinamento do famoso economista norte-americano Milton Freadman, que disse: “Em matéria de economia, não há almoço de graça”. Pois é, a Assembleia Legislativa do Estado (ALE) aprovou, na terça-feira, 26, uma nova jornada de trabalho para os agentes penitenciários. Eles trabalhavam um dia (24h) e folgavam dois (48h). Agora passam a ter quatro dias de folga por cada trabalhado. De cara, isso significa que, para desempenhar os serviços que eram prestados, o governo terá que promover concursos para contratar o dobro daqueles profissionais. E quem pagará a conta?

Parabólica
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