Por Opinião
Em 27/02/2018

Uma flor na escuridão - Walber Aguiar*

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. (Renato Russo)

Três horas da madrugada. Uma figura atravessou a rua, caminhou na direção do posto médico. Barba por fazer, roupa simples, coração entregue ao silêncio da noite. Agnailton, mais conhecido por Romeu, não temia o desconhecido. Temia apenas a ingratidão e o desprezo. Ingratidão de quem deveria amar, desprezo de quem deveria acolher.

Depois de dormir no posto da Mecejana, ele enfrentou a fila e o mau humor de atendentes despreparados. De gente ranzinza, seca e mal amada. Também de gente disposta a servir com ternura e compreensão. Contudo, ele seguiu sua missão: levantar os feridos e humilhados, estimar os velhinhos e crianças, sorrir para os estranhos como se conhecidos fossem.

O dia amanheceu. Romeu esfregou os olhos e massageou o afeto. Esteve em paz consigo mesmo; carregou no coração a simplicidade e o desejo de ajudar, a vontade de transformar a dura realidade daqueles que não tem a quem recorrer nas horas da dor e do desamparo. Recusou ajuda, embora soubesse que também estava doente. Não trocava seus favores por dinheiro, mas recebia qualquer coisa que viesse sob o signo da generosidade.

Transformado em andarilho, tratou a todos com enorme carinho e gentileza. Sabia reconhecer um sorriso sincero. Fez amizade com todos, tratou de mano, mana, tio, tia, pai, mãe. Na tentativa de compensar o vazio afetivo que carregava no peito.

Romeu não precisava de terno e gravata; muito menos de tráfico de influência, quando se tratava de dar sem receber quase nada em troca. Ele não precisava mentir, trair, enganar, se corromper, como fazem os homens públicos, que desconsideram os desgraçados fora do período de eleição.

Ele vai fazer muita falta. Na hora do bom papo, da profundidade filosófica, da consulta a ser marcada para os que não enxergam, não ouvem, não conseguem andar direito. Para aqueles de coração adoecido e de mente confusa. Para os que frequentavam o bar do “Mineiro”, o bar do “Bispo” e as ruas do bairro da Mecejana e do Cambará.

Cansado de curtir e ser curtido pela solidão urbana, ele tomou o rumo do interior. À semelhança de Thoreau, um filósofo norte-americano, ele “foi à floresta porque queria viver intensamente”. Ironicamente, foi tragado por ela. Perdeu-se onde mais desejava se encontrar. Nunca mais retornou ao convívio com os amigos e irmãos a quem amava.

Seu corpo foi coberto pelo barro vermelho do cemitério, sua alma leve voou para o “céu dos samaritanos”.

Descanse em paz, irmão. Seu nome vai ficar entre nós como uma lenda viva. E quando o vento frio da madrugada soprar no rosto dos velhinhos esquecidos, dos andarilhos errantes, dos bêbados e enlouquecidos pelo amor, alguém lembrará de você com ternura, saudade e devoção. Tchau, um abraço!!!....

*Advogado, poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de Letras. wd.aguiar@gmail.com


Inclusão social não passa de uma farsa - Marlene de Andrade*

"Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós..." (João 13:34).

As etnias variam sim, mas a raça humana é uma só, por isso não dá para entender por que o negro no Brasil ainda é muito discriminado e humilhado. Será que o branco discriminador não sabe que quando morrer vai virar ossos com a mesma cor da dos negros?

É revoltante perceber que os negros são as pessoas que mais ficam desempregadas e se conseguem se empregar, dizem as estatísticas, o salário dessa etnia é mais baixo do que o dos brancos, na escola desde pequenos as crianças negras também sofrem discriminação e entre outros tantos absurdos, os negros, mesmo que sejam inteligentíssimos, não conseguem ascender da mesma forma que os brancos.

No STF não têm ministros negros. Aquela classe de juízes são escolhidos a dedo pelo Presidente da República e nessa esteira vale questionar o porquê do Lula e da Dilma não terem indicados para aqueles cargos pessoas negras. Ora, eles não são socialistas e não pregam uma sociedade igualitária? Fernando Henrique/FH e tantos outros também não nomearam negros e por falar em FH não podemos nos esquecer de que ele nomeou Gilmar Mendes, o qual adora colocar brancos corruptos fora da cadeia. Quanto a parlamentares negros conta-se nos dedos.

Lula foi o Presidente da República que mais nomeou Ministros para o STF e negro ele só nomeou Dr. Joaquim Barbosa. Ele nomeou esse renomado advogado para fazer uma média com Frei Betto, pois um frade famoso como esse, pode evidentemente ganhar muitos votos para qualquer político e esse frade era muito amigo do Lula e foi ele quem indicou Dr. Joaquim, logo temos que convir que a nomeação desse Ministro foi feita por interesse e não devido à questão que envolve a inclusão social. Mas o interessante é que Lula acabou se tornando profundo inimigo do Dr. Joaquim, visto que ele condenou José Dirceu e Genoino por corrupção. E o lamentável é que existem pessoas afirmando que esse petista governou muito bem para os excluídos. Que alienação!

E negros em novelas? Geralmente, eles nunca recebem os papéis principais. Médico, advogado, ou qualquer outra profissão de certo status? É difícil encontrar um negro a exercendo. Gari? Aí sim, tem muito negro varrendo ruas e trabalhando em caminhões de coleta de lixo. À luz dessas considerações pergunto: por que alguns brancos, mesmo odiando negros, vão à praia para tentar ficar com a pele negra e por que muitas mulheres adoram usar trancinhas, colares grandes, pulseiras, roupas bem coloridas e turbantes à moda afro? Tripudiar, humilhar e depreciar negros e ao mesmo tempo imitá-los, diga-se de passagem, é muito estranho.

*Médica Especialista em Medicina do Trabalho/ANAMT-AMB-CFM


A postura na escada - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Quando ela canta me lembra um pássaro. Não um pássaro cantando, mas um pássaro voando.” (Ferreira Goulart)

Era uma tarde tranquila, numa São Paulo de temperatura amena. Desci do metrô, na estação Vila Mariana. Entrei pela escada rolante. Olhei para o lado e ela ia subindo pela escada convencional. De início impressionei-me com sua postura. Ela subia cada degrau da escada, na mesma velocidade da escada rolante. Mantinha o corpo bem ereto e pisava firme. O que requer muito preparo físico. Era uma mulher morena, bonita, de cabelos longos. Mantinha a cabeça sempre erguida, numa postura elegante.

No final do primeiro lance das escadas, distraí-me e ela desapareceu no meio da multidão. Mas no segundo lance lá estava ela, novamente subindo pela escada convencional enquanto eu seguia pela rolante. Caminhada e postura foram as mesmas. No final das escadas, ela sumiu-se no meio da multidão, já na rua. Ela saiu para um lado e eu para outro. Saí pela rua pensando na postura garbosa, na simplicidade mostrada durante todo o período.

Quantas pessoas feias e sem postura passaram por mim naquele trajeto, não sei. Não sei nem me interessa. Cada um na sua. O que me importa e interessa foi a atenção que dei à postura daquela mulher elegante na sua simplicidade. E fiquei convicto de que aquela mulher é uma vencedora. A forma como ela conduzia sua bolsa e algumas pastas, indicando que se dirigia ao trabalho. O positivismo transpirava e se fazia presente em todos os seus gestos, durante a subida naquelas escadas. Imagino o exemplo que deve dar aos seus colegas de trabalho. E olha que não estou exagerando nem fantasiando. O bom exemplo sempre será notado. Não sei se alguém, além de mim, presta sempre atenção às pessoas ao seu lado.

Nem sempre somos premiados com comportamentos exemplares como o bem que o comportamento daquela mulher me fez. É sempre gratificante aproveitar os momentos bons que vivemos no dia a dia, mesmo que seja numa descida de um metrô e subida de duas escadas. Os anos se passaram, mas a lembrança da imagem daquela mulher, subindo elegantemente as escadas, não me fugira, nem vai fugir da memória.

O bem sempre se erradica. E ele está onde você está desde que você saiba observá-lo. Habitue-se a prestar mais atenção às coisas boas à sua volta. São elas que fazem com que você se faça uma pessoa feliz. E, ninguém, além de você mesmo tem esse poder sobre você. Nunca desperdice seu tempo prestando atenção a coisas que não lhe façam feliz. Faça com que os acontecimentos simples levem você a ser feliz no seu dia a dia. Guarde as boas lembranças. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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