Por Opinião
Em 24/02/2018

O QUE HÁ DE ERRADO NA VIDA HUMANA? - José João Neves Barbosa Vicente*

Uma leitura de Lun Yu (traduzido como Os Analectos) de Kung Fu-tzu, mais conhecido no ocidente na forma latinizada “Confucius” (Confúcio), ajuda a responder essa questão. De um modo geral, o egoísmo e a ignorância transformaram a condição humana em uma discórdia social. Uma situação deprimente que, em síntese, pode ser descrita assim: relação humana desfigurada pelo conflito; dirigentes governam em benefício próprio; pessoas comuns padecem sob encargos injustos e comportamento social em geral é determinado pelo egoísmo e pela ganância. Cinco motivos, de acordo com Confúcio, explicam essa situação: apego ao lucro; falta do respeito da devoção filial; falta de confiança na ligação entre a palavra e a ação; ignorância e ausência da benevolência nos assuntos humanos. A forte preocupação com o resultado de uma ação particular em relação ao “eu”, determina o comportamento humano comum. “O que vou obter desta ação?”. Essa é uma pergunta habitual que as pessoas fazem e, que, no fundo, indica que o objetivo comum da ação é egoísta. Ela costuma ser executada para aumentar a riqueza ou o poder que se tem. É uma ação guiada por lucro que, de acordo com Confúcio (IV. 12), “vai gerar muita má vontade”. Fazer do salário o único objeto, lembra Confúcio (XIV. 1), é vergonhoso. Pautar a ação humana no lucro é pretender-se egoisticamente cuidar apenas de si mesmo. A diferença entre aquilo que se diz e aquilo que se faz é outro problema. Sem um vínculo direto entre palavra e ação, não há base para a confiança, já que esta se sustenta nas premissas de que o que foi dito será feito. Sem essa confiança básica, as pessoas perdem a capacidade de se mostrar com sinceridade e de confiar nos outros com algum grau de certeza. Assim, como disse Confúcio (V.10), “Eu costumava confiar nas ações de um homem depois de ouvir suas palavras. Agora, ao ouvir as palavras de um homem, vou observar suas ações”. O homem precisa aprender a agir com retidão, uma ação que transcende toda situação social particular. É preciso fazer o que é certo simplesmente porque é certo, e não por quaisquer outras razões. Agir com vistas a fazer o que é certo, em vez do que é lucrativo, pode impedir as frustrações. Mesmo que os esforços de alguém não sejam reconhecidos, o seguimento do princípio do “agir desinteressado” faz com que esse alguém jamais fique descontente. E mais, o princípio do “agir desinteressado” motiva a continuar agindo em favor da retidão num mundo que pouco a aprecia.

* Filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Editor da GRIOT – Revista de Filosofia


Que tiros serão esses? - Valdemir Pires*

Brasil nunca viveu uma guerra civil. Mas já amargou momentos em que os militares oprimiram o povo, suprimindo garantias individuais, suspendendo a democracia, desrespeitando as instituições do Estado de Direito, torturando e matando opositores e suspeitos de o serem. De modo que a sombra da ditadura militar sempre paira sobre a Nação, alimentada pelo imaginário pobre de indivíduos e grupos de índole autoritária em defesa de seus privilégios, grandes ou pequenos, reais ou fantasiosos.

A intervenção federal no Rio de Janeiro, colocando a gestão da segurança pública nas mãos de um general, é um acontecimento que se reveste de tamanha gravidade que, em tempos outros, provocaria posicionamentos e manifestações imediatos e contundentes de numerosas entidades e organizações da sociedade civil. Talvez isso não esteja acontecendo por causa do torpor em que estamos todos mergulhados, assistindo, diariamente, a escalada de um golpe midiático-parlamentar-jurídico que pode descambar para um governo senão militar, pelo menos militarizado, porque a panela de pressão do descontentamento pode estar a caminho da explosão, por conta da precarização das condições de vida e trabalho e também em decorrência das sucessivas afrontas diretas aos mais pobres, da parte de autoridades governamentais, dos meios de comunicação de massas hegemônicos e de indivíduos e pequenos grupos dos andares médio e superior da estrutura social injusta.

Caso se materialize essa hipótese, de um governo militar ou militarizado, será bastante diferente do que aconteceu em 1964/1968-1985, pelas seguintes razões: o país, hoje, é urbano e não rural, o que modifica substancialmente o "terreno" dos confrontos; os meios de comunicação de massas, apesar da sua condição monopólica, não dominam sozinhos a opinião pública, formada também via redes sociais; a sociedade está literalmente dividida ao meio, tornando difícil uma hegemonia a favor do golpe em andamento; o apoio de potências estrangeiras pode até existir, às escondidas, mas não é semelhante àquele que foi dado no contexto bipolar da Guerra Fria; a caserna não está tão assanhada, como em 1964 e, além disso, tem mais a perder, na atual conjuntura.

Que confrontos de rua possam vir a ocorrer, como estopim para uma quase-guerra civil é uma possibilidade que pode, rapidamente, se tornar probabilidade. Caso isso se materialize, as forças de segurança pública se revelarão insuficientes e incapazes de lidar com o problema. No Rio de Janeiro essas forças já faliram há muito tempo, daí não haver fato novo que justifique o decreto presidencial de intervenção federal. Esta intervenção é equivocada e inoportuna.

É equivocada porque não é papel das forças armadas atuar na segurança pública, resolver conflitos internos. Elas destinam-se à defesa nacional e seu preparo é para conter ou eliminar o inimigo externo ou para atacar além-fronteiras. Tanto assim que no golpe militar de 1964 o alvo era a "ameaça comunista", parafraseando os americanos. As forças armadas são preparadas para matar e as forças de segurança pública não devem ser: seu papel é garantir a lei e a ordem, respeitando a vida até o ponto em que matar seja inevitável. Concepção, aliás, afastada quando a polícia é, erroneamente, militar.

É equivocada porque coloca um militar no comando de uma política pública estadual, coisa que a Constituição não permite: o governo, no Brasil, é civil. Não só isso: Exército, Marinha e Aeronáutica hoje respondem ao Ministério da Defesa, sempre ocupado por um civil, a fim de assegurar que a Política comanda a Força, não o contrário, em sintonia com a concepção estratégica tão bem defendida por Liddel Hart, inspiradora dessa configuração.

É inoportuna essa intervenção, por vários motivos: "joga" o exército no meio de uma guerra civil já em andamento, abrindo a porta para o risco de desmoralização do último recurso contra a desordem; reveste-se de um oportunismo político-partidário evidente: levanta uma cortina de fumaça sobre o confronto institucional que está levando o governo ilegítimo para o muro, acuando-o diante da opinião pública que começa a se reverter; declara guerra aberta e concreta contra áreas de pobreza crônicas, num momento em que está evidente a postura antipobres das reformas e políticas encetadas pelo governo.

Parece, entretanto, que o governo está perdendo a confiança no poder do engodo. Ele tem funcionado até aqui, mas começa a dar sinais de esgotamento. Nesse caso, o próximo recurso é a força. Será ela, entretanto, tão eficaz quanto o engodo até agora praticado?

Será que os estrategistas do governo, perceberam que o golpe está perdendo força e devem, por isso, aparentar o contrário? Talvez tenham lido muito amadoristicamente a máxima de Sunt-Tzu (A arte da guerra) que indica como bom procedimento iludir o inimigo: parecer forte quando fraco, parecer fraco quando forte.
Mas não se esqueçam: "Toda ação militar é permeável às forças da inteligência e a seus efeitos" (Clausewitz), especialmente se essa ação militar não se originou de raciocínios formulados com um mínimo de Inteligência.

*Economista, professor e pesquisador da Unesp


“Dona divergência” - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Oh Deus que tens poderes sobre a Terra,
Deves dar fim a esta guerra,
E aos desgostos que ela traz”
(Lupicínio Rodrigues)

A humanidade sempre viveu num campo de guerra. Não há capítulo da história que não mostre o quanto lutamos para viver. Ainda não nos racionalizamos para viver sem luta. Quando não lutamos uns com os outros, lutamos na tentativa de sobreviver aos desastres da Natureza. Ainda não fomos suficientemente esclarecidos para sabermos quantos dilúvios já sofremos. E por que sofrê-los? Por que não nos racionalizamos para sair desse forno em constante e permanente fervura? Por que não nos preparamos para o próximo dilúvio? E irmos para onde?

O Lupicínio Rodrigues pede a Deus para que use seus poderes para nos salvar. Mas, pelo que vejo, Deus não deu importância à prece do compositor. E continuamos nos esquentando na fervura do forno astrológico. O mundo está vivendo a fervura de tempos passados. O que significa que a Cultura Racional está nos advertindo e nós não estamos nem aí. Continuamos no século vinte e um da era cristã, como viveram nossos ancestrais de eras que já não são mais medidas. Um passado tão remoto que nem temos mais como contar o tempo.

Vamos fazer nossa parte no desenvolvimento da humanidade. E é simples pra dedéu. É só nos racionalizarmos. Entender que somos responsáveis pelo nosso futuro. E enquanto não entendermos isso continuaremos entregando nosso futuro nas mãos dos que nem mesmo têm futuro. E os políticos continuam nos mostrando isso e nós continuamos de olhos vendados. Continuamos evoluindo para destruir o mundo. Tão tolos que não vemos nem acreditamos que o dilúvio vem aí. Ele nos destruirá sem que nos preparemos pra isso.

Procuremos o caminho da racionalidade. Somos todos da mesma origem. Nossa chegada aqui foi produto do nosso livre arbítrio. Chegamos porque quisemos chegar e ficamos porque quisemos ficar. Mas ainda não aprendemos como sair. Ainda preferimos acreditar nos que nos dizem, os que também ainda não conseguem se racionalizar. Ainda não aprendemos a acreditar no nosso poder. E este está no nosso pensamento. Simples pacas. Tão simples que não conseguimos valorizar. Ainda não acreditamos no positivo. Preferimos permitir que dirijam nossas vidas.

Você é a única pessoa, no mundo, que tem o poder de fazer de você uma pessoa feliz ou infeliz. Ninguém mais, além de você, tem esse poder. Então procure mudar sua vida para mudar o mundo. Você pode fazer isso se achar que pode. O que faria de você uma pessoa poderosa para o retorno ao seu mundo de origem. Mas depende de você e de mais ninguém. Pense nisso.

*Articulista
Afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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