Por Opinião
Em 05/12/2017

BRASIL NÃO PODE PARAR - Michel Temer*

O título deste artigo faz referência a uma frase que era orgulho de paulistas e posso dizer de brasileiros em geral. Durante anos ecoava em todo o país o brado “São Paulo não pode parar”. Hoje, esse sentimento e essa convicção estão presentes em todos que percebem que o país mudou. O Brasil não pode parar. Ninguém conseguirá tirar o nosso país dos trilhos do crescimento e da justiça social.

A resposta à crise artificial é clara. Tivemos abertura de novos empregos em três dos cinco primeiros meses do ano, em fevereiro, abril e maio. Em 2017 a geração de empregos já é positiva. Nosso trabalho agora é ampliar esse quadro e absorver os milhares de brasileiros que estão fora do mercado de trabalho.

Estamos a um passo da aprovação da proposta de modernização trabalhista que enviei ao Congresso Nacional, que simplifica as leis trabalhistas. Ela passou pelas comissões temáticas e, agora, vai para o plenário do Senado.
Esta reforma é fruto de muito diálogo com todos os setores envolvidos, especialmente os trabalhadores. De acordo com estudo divulgado recentemente, a modernização trabalhista, junto com a lei da terceirização, pode gerar 2,3 milhões de empregos formais em curto espaço de tempo.

Ela pune o empregador que pagar salários diferentes para homens e mulheres que exerçam a mesma função. Fortalece o papel do sindicato nas relações trabalhistas, dando força de lei do acordo coletivo. O Brasil, hoje, tem 90% de todos os litígios trabalhistas ocorridos no mundo.

Patrões e empregados vão poder negociar questões pontuais, como duração da jornada de trabalho e adequação desta jornada para diferentes públicos; trabalho remoto; banco de horas; participação nos lucros.

Meu governo tomou medidas que dão mais segurança ao trabalhador no mercado de trabalho e simplifica a busca de novas colocações. Lançamos, em dezembro de 2016, uma plataforma antifraude no seguro-desemprego.

Já foram bloqueados 29.871 requerimentos e evitadas fraudes no valor de quase R$ 153 milhões, propiciando economia direta e indireta no valor de cerca de R$ 487 milhões.

Em maio deste ano, lançamos o Sine Fácil, um aplicativo móvel que permite ao trabalhador encontrar, sem precisar gastar dinheiro com deslocamentos até uma agência do Sine, vagas adequadas ao seu perfil. Até o último dia 23, o Sine Fácil tinha encaminhado 11.684 pessoas a vagas de emprego.

O momento que atravessamos exige responsabilidade de todos. Responsabilidade com as pessoas, com a coisa pública, responsabilidade com atos e palavras. O que está em jogo é a superação de uma crise sem precedentes, é o futuro do Brasil.

Por isso, repito: o Brasil não pode parar. O Brasil não tem tempo a perder. Seguiremos adiante.

Presidente da República*


Universos walberianos - Walber Aguiar*

Uma parte de mim é solidão, outra parte estranheza e solidão
Gullar

Menino, vem almoçar! Era o grito, a ordem irrefutável, o sinal para que todos se postassem à mesa, em torno do cozido, da panelada, da galinha caipira, enfim, de tudo aquilo que dava prazer aos olhos e ao paladar. A festa mesmo era aos domingos, quando todo mundo se reunia para conversar e viver intensamente aquelas horas curtas, porém agradáveis. Felizmente, a televisão, que naquela época ainda não se tornara a “deusa dos raios azulados”, não fazia a frágil cabeça de meninos e meninas. Ausentes a manipulação da mídia e o poder ideológico da política partidária, exercíamos livremente nossa pureza e ingenuidade. Baladeira, bolinha de gude, manja, esconde-esconde, geral, bandeirinha, pião, papagaio (pipa), gibis e a tradicional pelada faziam parte de nossa intensa e louca infância. E logo ali, na velha Coronel Mota. Tudo era milimetricamente aproveitado. Todos os espaços daquela efervescência existencial eram preenchidos pela meninada.

Ainda lembro do dia em que todos estávamos à beira de uma vala enorme. Idos de 70. Nego João era o mais temido, pois dava cascudos na molecada. Lá no começo da rua avistamos Ricardo, mais conhecido como “Mercadinho”. Vinha com uma enorme bacia de cocadas na cabeça, todas cobertas com um pano branco. Começamos a jogar pedras, a fim de que o menino se desviasse. Não deu outra: o vendedor de doces deixou cair toda a mercadoria na vala. Todos correram pra casa. Ricardo chorou e teve as cocadas pagas pelo velho “Arigó”, pai de Raimundinho, que não teve como escapar da surra. O velho, de saudosa memória, era tio de meu pai e tinha fama de mau, pois durante a adolescência, no Nordeste, quis seguir o bando de Virgulino Ferreira, o Lampião.

Duas coisas eram temidas: a surra em casa e o encontro com a turma do “Deda”, na outra parte da rua. Ninguém podia invadir o território alheio, sob pena de apanhar e chegar em casa chorando. Por aquelas bandas morava Mário, o vascaíno, primo de “camiranga”. Baixinho, galista, torcedor fanático do Vasco, vibrava com os gols de Roberto Dinamite e vivia discutindo futebol com aqueles que também entendiam do assunto. O filho de seu Eduardo e dona Marieta era folclórico e extremamente gozador. Mas Mário nunca convenceu ninguém a torcer pelo time da cruz de malta. Desde pequeno aprendi a torcer pelo Fluminense, herança de meu primo Magno, que me ensinou a ter bom gosto, tomar vinho e vibrar com os gols de Cláudio Adão, Assis e Romerito. Aquelas três cores me fascinariam para sempre.

Naquela manhã todos acordaram assustados. Porcos sentindo a proximidade da morte gritavam no quintal de Chico Cunha, onde seríamos convidados para comer torresmo e cabeça de porco assada. Era o máximo. Ali, na velha rua, a alegria era contagiante. Naquela geografia dos pés descalços, acontecia de tudo, “chuva de peixe”, gozação, valas abertas, alagações e tudo quanto a imaginação pudesse criar. Antônio Chinelão fez parte daqueles dias. Dono de bar, aguentou muita coisa. Chateação de bêbado, jogo de sinuca e o famoso “pendura”. Mesmo caxingando, vítima de uma armadilha de caça, “Chinelo” atendia a todos com enorme cortesia. Magno, nego João, caboco Clério, “Camiranga”, Dagmar, Paulo “Mamão”, Nairon e Danilo Preventino. Jânio “Cachorrão” também aparecia por lá de vez em quando. Gostava de beber no bar do seu Pinheiro, embalado pela viola de Clério, o caboco que tocava não apenas violão, mas o sentimento de cada um de nós.

Ainda hoje, na quietude de meus pensamentos, ouço todas as vozes, todos os gritos, todas as tristezas e alegrias daquela velha rua de barro batido, daquele espaço santificado pela devocionalidade de um sentimento quase infantil. O lugar de Moacir, o “Bode”, de Barbosinha, Márcio Velho, Maurício Bunitin, Delei, Ailton e Chico Catraca. Lembro de seu Calandrino, Dona Vevé, Vovô, Sabugo, Treveco, Dona Iolanda e Genésio do trombone. Quando a saudade aperta o peito, fico olhando todos aqueles quintais e lembrando da felicidade, da manga com sal e dos gritos sempre vivos de Dona Maria, a mulher que me amou incondicionalmente...

*Advogado, poeta, historiador, professor de filosofia e membro da Academia Roraimense de Letras


Conectados no mundo virtual - Marlene de Andrade*

“A maldade aumentará de tal maneira que o amor de muitos se esfriará” (Mateus 24:12).

Hoje até mesmo crianças vivem conectadas às redes sociais, inclusive nas escolas, porém tal costume retira literalmente o aluno do alvo que deve ser estudar.

É evidente que estar conectado, digamos no WhatsApp, é importante, mas não para ficar jogando conversa fora e passando muito tempo nas redes, sabendo o que ocorreu aqui e acolá, visto que tal prática pode comprometer a saúde mental dos mais fragilizados emocionalmente. É tanto canal de contato, que as pessoas acabam ficando psicologicamente entorpecidas e distantes do mundo real.

Há até quem afirme que o uso em excesso das redes sociais pode ser prejudicial à saúde mental, principalmente de crianças e adolescentes, pois o senso crítico delas não é ainda preparado para receber inúmeras informações ao mesmo tempo. E o pior é que, estar plugado de forma permanente pode criar dependência, ou seja, vício.

A internet ajuda muito a nos integrar com a sociedade, contudo seu mau uso e falta de informações de como se portar diante dessas mídias pode trazer problemas profundos à vida de muitas pessoas desencadeando nelas, até mesmo depressão.

Quando eu era pequena uma carta que minha parentela portuguesa enviasse à minha família no Rio de Janeiro e vice-versa, poderia demorar a chegar ao seu destino até quinze dias, porém hoje, essa realidade mudou, pois agora em questão de segundos tudo pode ser compartilhado entre todas as pessoas, por este mundo afora, apenas com um clique. Que bom é ter informações rápidas, porém isso pode trazer grandes e malignas consequências ao aparelho mental das pessoas que não souberem usar as redes de forma parcimoniosa.

É um absurdo perceber crianças de até dois anos conectadas às redes através de celulares ou tablets. Brincar com bonecas, carrinhos e de casinha? Isso é coisa do passado.

Cadê o contato pessoal tão importante para todos nós? E o pior de tudo é que as redes sociais também têm servido para pedófilos, estupradores e delinquentes abusarem e se aproveitar de pessoas vulneráveis ludibriando-as através de identidades falsas.

Aqui cabe uma pergunta: será que as crianças estão buscando interagir virtualmente umas com as outras por estarem tendo necessidade de se sentirem amadas? Esses questionamentos devem ser feitos e as famílias precisam se preocupar com essas questões antes que estejam criando dentro de casa verdadeiros robôs eletrônicos.

*Médica Especialista em Medicina do Trabalho/ ANAMT


Ditos bem ditos - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Quando nos amamos de verdade, tudo dá certo”.

Os ditos quando são bem ditos tornam-se benditos. Desde, claro que não os vulgarizemos. Os nordestinos são useiros e vezeiros dos ditos populares. Recentemente o escritor potiguar, Geraldo Queiroz, me mandou um exemplar do seu último livro: “Geringonça do Nordeste – A Fala Proibida do Povo”. Uma beleza de livro. Um verdadeiro glossário de expressões usadas no nordeste. Muitos dos dizeres bem usados atualmente em todas as regiões do Brasil. Mas é muito gostoso você ler expressões, das quais você nem se lembra mais e que muitas vezes nem conhece.

Terça-feira estávamos na reunião do Fórum de Cultura quando, propositadamente, o roraimense Edgar Borges usou uma expressão muito conhecida pelos nordestinos: “Quem não pode com o pote não pega na rodilha”.

Expressão bem oportuna no assunto que se discutia, sobre a provável construção do Teatro Municipal de Boa Vista. Minha mãe usava muito esse dito, sempre que algum de nós extrapolava e cometia uma imprudência. Ela assumia o que fazíamos e simplesmente advertia:

- Quem não pode com o pote não pega na rodilha.

Ontem, pela manhã, eu estava no quintal quando ouvi, lá na oficina do Olímpio, alguém falar pra alguém:

- Em casa de ferreiro, espeto de pau.

Outro dito que minha mãe usava com frequência. Quando, por exemplo, ela achava que meu pai caíra em falta com alguma coisa simples que ele deveria ter feito. Ele era marceneiro. Num dia, ela precisou comprar uma colher-de-pau. Ela chamou meu irmão mais velho, olhou sarcasticamente pro meu pai e ordenou pro meu irmão:

- Vai ali comprar uma colher-de-pau, pequena, pra mexer o mingau, porque em casa de marceneiro o espeto é de ferro.

Prendi-me pra não rir e vi que meu pai fazia o mesmo esforço. Ainda bem, porque, no temperamento dos dois, o assunto banal e corriqueiro era suficiente para uma tremenda ranzinzice.

Você já prestou atenção em como essas coisas aparentemente banais são muito importantes no nosso crescimento? Já viu como é gostoso você se lembrar de tais insignificâncias vindas de ditos populares, de lugares e em horas tão distintos? Isso faz parte do nosso viver. O prazer que senti em ouvir um ditado numa reunião do Fórum de Cultura foi o mesmo que senti ouvindo-o vindo da oficina mecânica. E isso é cultura, senhores candidatos a postos eletivos. Pensem nisso como plataforma em suas campanhas, senão vamos ter que enfrentar o lodo do analfabetismo político e social por mais um longo período na formação dos nossos descendentes. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
9121-1460

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