Por Jessé Souza
Em 26/10/2017

Entre o estranhamento e a ausência

Os números apontados pelo Instituto Unama sobre os venezuelanos, divulgados pela Folha, não revelam surpresa: a população roraimense não vê a migração em massa dos venezuelanos com bons olhos porque isso significa uma mudança brusca na realidade local em todos os aspectos, principalmente no social e econômico.

Esse mesmo estranhamento ocorreu com os migrantes nordestinos a partir da década de 1980, os quais foram trazidos pelo governo da época como política de formação de currais eleitorais, sob a bandeira de assentamentos em projetos de colonização agrícolas, ou vieram por conta própria, em busca de melhores condições de vida e do sonho do garimpo de ouro.

Com a forte migração da época, a pacata Boa Vista começou a sentir o peso do inchaço, com o surgimento da periferia, ou seja, dos bairros mais afastados do Centro ocupados pelas famílias, inclusive o mais famoso deles foi batizado de Pintolândia, em homenagem ao governador da época que incentivou a vinda de nordestinos, Ottomar Pinto, já falecido.

Os preconceitos eram tão fortes a ponto de surgirem piadas com os migrantes, em destaque para os maranhenses, os quais chegaram a ser maioria, inclusive superando a população nativa. Hoje os migrantes, não só os nordestinos como os demais de outras regiões do país, estão integrados à sociedade local, superando uma realidade de preconceito muito semelhante ao que estamos vendo hoje com os venezuelanos.

Porém, são realidades distintas, a começar pelo fato de serem estrangeiros, o que impõe uma barreira pela língua, e o momento econômico complicado pelo qual o Estado passa, com desemprego e um setor público deficiente na oferta de serviços à população.

Passamos a ter pedintes em todos os lugares, “favelização” de logradouros públicos, crianças no semáforo pedindo esmola, mulheres se prostituindo e criminosos que atravessam a fronteira com muita facilidade. E tudo causa preocupação à sociedade local e desperta em muitos o preconceito e a xenofobia aos estrangeiros empobrecidos.

Foram anos para a migração nordestina se consolidar e se fundir à cultura local, o que obrigou as autoridades a buscarem programas sociais que resistem até hoje, além da ocupação no mercado de trabalho e por meio da formação educacional.

Mas hoje vivemos uma realidade muito diferente, com governos locais em crise. Então, se não houver ações rápidas do Governo Federal para intervir e ajudar, dificilmente o Estado irá conseguir superar os problemas. Até agora, o que se vê são apenas muitas reuniões, palestras, encontros e seminários.

Então, é com esta ausência do poder público que a sociedade deveria se preocupar, e não alimentar uma aversão aos estrangeiros. Enquanto isso, a pobreza e a violência aumentam, inclusive com os próprios venezuelanos sendo algozes e vítimas. E não sabemos aonde isso vai parar...

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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