Por Moara Albuquerque
Em 29/01/2018

Porque arquitetos e clientes precisam ouvir mais

Quando entramos em um ambiente com muito ruído o que acontece é uma crescente sensação de desconforto e irritabilidade, cansaço e perda de atenção. Esses são problemas que as pessoas dificilmente associam ao barulho, de acordo com a fonoaudióloga Ângela Ribas.

Na sua tese de doutorado, Ângela percebeu que as pessoas veem a poluição sonora como um incômodo, como algo negativo, mas não reagem ao problema. “As pessoas não instalam janelas antirruído, não reclamam ou não sabem para quem reclamar. Sabem que o ruído existe, só que esse conhecimento não passou para o campo emocional, tanto do lado da população quanto do lado dos gestores. Está todo mundo acomodado.”


Texturas acústicas Zintra

A média definida de ruído pela Organização Mundial de Saúde é de 50 dB (decibéis). Acima desse valor o organismo começa a sofrer impactos como estresse, insônia, irritabilidade, ansiedade, distúrbios endocrinológicos e até perda irreversível de capacidade auditiva. Para termos como exemplo, o trânsito de uma cidade movimentada atinge facilmente os 80 dB; e uma lanchonete muito barulhenta, beira os 87 dB.

Estamos vivendo em ambientes que nos prejudicam a cada dia. A poluição sonora afeta nossa qualidade de vida, nossa saúde, nosso comportamento social, nossa produtividade e nossa saúde. Precisamos de arquitetos que pensem na parte acústica do projeto e de clientes que valorizem este trabalho.


Blocos de redução de ruído da Muratto

No campo da Arquitetura, o que normalmente acontece são arquitetos e clientes que se concentram exclusivamente no campo visual do projeto. Isso faz com que acabemos sentados em restaurantes em que não conseguimos sequer ouvir o que a pessoa ao nosso lado está tentando falar, mesmo que ela esteja quase gritando. O ruído pode ficar insuportável e acabar espantando clientes e reduzindo o faturamento.

Faz com que, nas escolas de nossos filhos, aquelas crianças que se sentam na quarta fileira tenham um nível de compreensão de apenas 50% do que o professor diz.

Faz com que construamos auditórios com centenas de cadeiras e uma tela enorme para apresentações e não consigamos compreender o que o palestrante está falando. É muito simples, se você consegue escutar o que o apresentador está explicando, você pode compreender mesmo sem vê-lo. Porém, se você o vê, mas não o escuta, não tem como assimilar alguma coisa.

Nos nossos empregos, de acordo com estudos de acústica, os ruídos em excesso levam as pessoas a serem pessoas menos prestativas, menos felizes com seus colegas e menos produtivas nos serviços.

Tudo isso pode ser evitado apenas fazendo um tratamento acústico nas salas e pensando no projeto arquitetônico como um todo, não apenas pelo lado visual.

Assim, de acordo com o especialista em som, Julian Treasure, pensando nessa “arquitetura invisível”, teremos espaços que soam tão bem quanto aparentam que estarão adequados à sua função e que irão aumentar nossa qualidade de vida.


Perfis Arper: Parêntesis

Moara Albuquerque
contato@opendoor.arq.br
Moara Albuquerque é arquiteta da OpenDoor Arquitetura, uma empresa voltada para a criação de projetos comerciais e clínicos.
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