Jessé Souza

Anarrie que nada 4279

Anarriê que nada!Não há justificativa plausível para dois arraiais juninos, do Governo do Estado e da Prefeitura de Boa Vista, um seguido do outro, como se estivéssemos vivendo em tempos de vacas gordas, como se dizia no passado para expressar épocas de bonança. Os governantes ficam lastimando falta de recursos, mas disputam quem faz a festa mais bonita, mais frequentada, mais enfeitada.

De fato, há um trabalho artístico impecável dos dois lados nesta disputa, pois ao povo só interessa festa e, enquanto o circo está com sua lona em pé, alguns se aproveitam da vaidade e muitos tentam sobreviver como vendedores ambulantes ou trabalhando nas barracas cedidas pelo poder público durante o festejo.

O que chama a atenção é que parece que há uma autorização para que esses vendedores pratiquem preços extorsivos em todos os produtos, a exemplo do que ocorreu no arraial municipal Boa Vista Junina, onde alimentos que não passam de R$ 10,00 no mercado acabam até dobrando de preço. E não há para onde correr. Até que no arraial estadual, no Parque Anauá, já surgiram vendedores praticando preços razoáveis.

A própria estrutura dessas festas é propícia para haver uma variação de preço absurda em divisão de classes. Os organizadores sempre colocam uma barraca tipo Casa Grande, na área central, com preços que naturalmente excluem os mais pobres, pois ali é nitidamente feita para autoridades frequentarem e não se misturarem ao povão.

O povo ainda é dividido entre os que dizem ser classe média, em barracas com uma estrutura melhor, e os de classe mais baixa, a quem sobra os ambulantes e toda sorte de vendedores que ficam numa área mais distante, como se fosse a Senzala, onde se pratica preços mais baixos (mas não tão baixos assim).

Para animar a festa, cantores de sofrência e do tal sertanejo universitário, com suas músicas feitas para gente que parece sofrer seriamente de desilusão amorosa, como se fosse um masoquismo coletivo, longe dos arraiais de antigamente, do quais só restam saudosismo e nem mais vestígio de fogueiras, hoje fictícias para fazer selfies.

Mas, enfim, enquanto os governantes torram o dinheiro público com duas festas seguidas, dividindo a Casa Grande e a Senzala, o povo se joga na disputa de glamour entre os grupos políticos, no ritmo de quem gosta de sofrer mesmo. Depois, quando o glamour se tornar lixo, e o dinheiro for transformado em farra, vem a realidade com ruas alagadas e filas nos hospitais. Então, anarriê, pessoal, quer dizer, boa cornância, pessoal! *[email protected]: www.roraimadefato.com.br